O conto da força, e o lobo que escorregou no gelo e quebrou uma pata.

Força, tão impressionante e paradoxal para os meninos, a que desejam para não terem medo  (ao desconhecido, á força de outrem) mas também para agir como adultos nos trabalhos da vida, fortes para a solidariedade e para o egoísmo. Mas crescer em forças não impede mantermos francos débeis e,  espreitando aos adultos, descobrir que quanto mais fortes mais perto do limite, do ponto de inflexão a partirem do qual a força, aos poucos, vai esmorecendo.

Infelizmente logo descobrimos que a força do adulto não faz fugir o nosso medo, que ele está em nós próprios, nas nossas mentiras, agachadas trás o espelho fronte ao qual somos incapazes de mantermos a mirada, e que só o podemos dominar se, balançando forças e debilidades, rachamos o espelho para nos achar e  assumirmos  a nós próprios, que não existe o medo mas que no nosso medo.

Nós somos o lobo do que temos medo.

E aqui começa a história de noites na lareira do meu avô.

Foi um dia de inverno nos montes de Corneria, brancos de neve e gelo, quando um  lobo grande, o mais forte da manada, de pêlo lustroso e olhos de lume, sem medo a ninguém e seguro de trincar quanto quisera, deu por subir uma encosta cuja pendente a Geada convertera em cristal.lobo_2

Destas que, aos poucos do começo, na primeira reviravolta, escorregou e uivando pela dor deu na conta de ter quebrado uma pata.

Rosnando, com incredulidade, desabafou uma pergunta para o Geada:

Geada como sendo eu tão forte foste quem de fazer-me escorregar e quebrarem-me uma pata?

A Geada nem se importou, e com frieza respondeu “Mais forte é o Sol que o meu gelo derrete”

 O Lobo importunado pela resposta, e contra o seu costume, uivou-lhe ao Sol  e lhe lançou a pergunta:

Sol como és tão forte que derretes o gelo da Geada que foi quem de quebrar-me uma pata?

O Sol, ainda meio adormecido e com voz rouca, sem se dar importância devolveu-lhe “Mais forte é o Nublado que a minha luz torna fraca”.

O Lobo não dava em si, mas procurando calmar-se, lançou a pergunta para o Nublado:

Nublado, como és tão forte que tornas a luz do Sol, capaz de derreter o gelo da Geada, que foi quem de me quebrar uma pata?

O Nublado que levava já muitos dias trabalhando, com uma voz muito tênue e cansa, diz-lhe: “Olha, Lobo, mais forte é o Vento que a mim me leva”.

A impaciência junto com a dor começava a se mostrar nos olhos do Lobo, que apresentando os dentes berrou-lhe ao Vento:

Vento, como és tão forte que levas ao Nublado, que torna o Sol que derrete a Geada que foi quem de quebrarem-me uma pata?

O Vento que por lá parara a repor as forças, sem presas, leve, quase assobiando , pousou-lhe nos ouvidos: “Mais forte é a muralha que detém o meu passo”

O Lobo reunindo forças para manter a calma, orientando o seu uivo cara o castelo do monte, demandou-lhe resposta á Muralha:

– Muralha como és tão forte que paras o Vento, que leva o Nublado que torna o Sol que derrete á Geada que foi quem de quebrarem-me uma pata?

A velha Muralha, com poucas forças já, só chegou a dizer-lhe: “Mais forte é o Rato que a mim me rói”

Com a dor cada vez mais forte, e os olhos inçados de ódio, o Lobo vendo um Rato temeroso  que de longe fitava, tratando de não lhe meter mais medo, baixando a voz perguntou-lhe:

Rato como és tão forte que róis a Muralha que para o Vento, que leva o Nublado que torna o Sol que derrete á Geada, que foi quem de quebrarem-me uma pata?

O Rato muito desconfiado, tímido e com voz apenas perceptível  disse-lhe; “Mais forte é o Gato que a mim me come”

O Lobo aos poucos deu no Gato que veloz é ágil estava silandeiro á espreita entre a escuridão do mato, apenas distinguível pelo brilho dos olhos. Curioso, vendo a pata quebrada, puso-se ao rente do lobo para ouvir a pergunta:

– Gato como és tão forte que comes ao Rato que rói a Muralha que detém o Vento que leva o Nublado que torna ao Sol que derrete á Geada que foi quem de quebrarem-me uma pata? 

Com mirada astuta, como perdonando-lhe a ignorância, o Gato, antes de desaparecer dum salto, deixou-lhe: “Mais forte é o lume que a mim me queima” 

Uivando mais forte, o Lobo lançou a pergunta ao ar, por si num acaso lhe devolveram resposta:

Lume como és tão forte que queimas ao Gato que come o Rato que rói a Muralha que detém o Vento que leva o Nublado que torna ao Sol que derrete a Geada que foi quem de me quebrar uma pata? 

No murmúrio das folhas surgiu, com um cheiro afumado e quente, a resposta do Lume da lareira de uns pastores: “Mais forte é a água que a mim me apaga”

Quase enlouquecido o lobo perguntou-lhe ao fio do regato que ainda se mantinha a beira do caminho, também doente pelo frio.

Água como és tão forte que apagas o Lume que queima ao Gato que come o Rato que rói a Muralha que detém o Vento que leva o Nublado que torna ao Sol que derrete a Geada que foi quem de me quebrar uma pata? 

Muito débil a Água, deu-lhe a resposta: “Mais forte é o burro que a mim me bebe”

E por estas o Avó, distraído, olhava para nós e a nossa curiosidade misturada de impaciência e sonho, e calava, enquanto ao longe uivava um lobo, com o vento zoando nos cristais da cozinha, e o lume criando sonhos de sombras nas paredes. O tempo se parava, salvo a nossa necessidade de saber o fim do conto.

E de súpeto um de nós pedia saber que resposta dava o Burro, ao que a Avó, que calara todo o tempo, rindo da brincadeira do casal dizia “Levanta-lhe o rabo e saúda-o” para depois deitar-nos sem medo ao lobo, á geada, ao sol, ao nublado, ao vento, á muralha, ao rato, ao gato, ao lume, á água, e sem querer ficar também para saudar ao burro na corte. 

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